Relações sociais: o fator de saúde que raramente entra na consulta
No dia a dia, durante uma consulta médica, é normal o médico perguntar sobre a tensão arterial, o colesterol ou mesmo sobre a qualidade do sono. Mas é bem pouco frequente ouvir o médico questionar sobre com quem a pessoa almoçou na última semana, ou há quanto tempo não recebe uma visita em casa, ou não vê os filhos, ou os netos… E, no entanto, essa resposta pode dizer muito sobre uma dimensão da saúde que ainda é muito pouco explorada e sobre os riscos do isolamento e da falta de relações sociais.
O peso real do isolamento
O risco de morte associado ao isolamento e a solidão é da mesma ordem de grandeza que o observado para alguns fatores de risco já bem estabelecidos, como o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e a obesidade. Em pessoas mais velhas, uma meta-análise recente encontrou um aumento de cerca de 14% no risco de morte por qualquer causa associado à solidão, de 35% associado ao isolamento social e de 21% entre quem vive sozinho.
Neste ponto, vale a pena distinguir duas coisas que costumam confundir-se. Isolamento social é uma medida objetiva da quantidade e frequência das relações e contatos sociais. Já o termo Solidão se refere a percepção de estar só, que pode existir mesmo em quem está rodeado de pessoas, e por outro lado pode inclusive estar ausente em quem vive sozinho por escolha e se sente bem assim.
O que acontece no corpo
O isolamento e a solidão prolongados associam-se a alterações mensuráveis no organismo: aumento da inflamação de baixo grau, desregulação das hormonas de stress e maior risco de doença cardiovascular e de declínio cognitivo.
No caso da demência, há números que dão a dimensão do problema. Entre pessoas mais velhas, o isolamento social foi associado a um risco cerca de 27% maior de desenvolver demência ao longo de nove anos. Para a solidão, uma meta-análise recente que reuniu mais de 600 mil participantes encontrou um aumento de cerca de 31% neste risco.
Uma das hipóteses para esta relação é que menos interação social implica também em menos estimulação cognitiva no dia a dia, como menos conversas, menos decisões partilhadas e menos situações novas a exigir atenção. Mas os mecanismos que explicam esta associação ainda não estão completamente esclarecidos.
Convém dizer que estas estimativas variam conforme a forma como cada estudo define e mede isolamento, e nem todas as análises encontram o mesmo grau de certeza. A associação, contudo, tem sido observada de forma consistente.
Quem está mais exposto
Na velhice, alguns fatores podem favorecer o isolamento social: reforma, perda de entes queridos, limitações de mobilidade, problemas de audição ou visão e filhos que emigram ou se mudam para outras cidades. Para quem vive longe da família de origem, como acontece com muitos brasileiros a residir em Portugal, a distância pode dificultar a manutenção de relações próximas e a construção de uma nova rede de apoio. É um problema que pode passar despercebido.
O que ajuda, na prática
Mais do que o número de contactos, importa que existam relações significativas e fontes de apoio nas quais se possa confiar.
É importante tentar transformar o contacto numa rotina, por exemplo, combinar uma chamada semanal com aquele seu familiar ou amigo pode ser mais fácil para ajudar a estabelecer uma rotina no decorrer do tempo.
Atividades regulares com um propósito partilhado — como associações, voluntariado, caminhadas ou grupos comunitários — podem facilitar a criação de novos contatos e reduzir a solidão.
As interações breves do dia a dia também contam. Conversar com o vizinho, com o porteiro do prédio, ou mesmo com comerciantes locais que encontra com regularidade, alimenta a sensação de pertença.
Quem vive longe da família precisa e se beneficia de construir de forma deliberada uma rede de apoio local, sem esperar que ela apareça sozinha.
Quando vale a pena falar sobre isto
Se a sua rede de contacto encolheu de forma clara nos últimos meses, ou se anda a evitar situações sociais que antes lhe davam prazer, esse já é um bom motivo para trazer o assunto a uma consulta. As relações sociais e outros aspectos relacionados a solidão têm relevância clínica suficiente para serem abordados em uma consulta, sobretudo caso tenha acontecido alguma mudança recente na sua vida social ou caso sinta falta de companhia, apoio ou ligação com os outros.
Referências científicas
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Social isolation and risk of dementia: a burden of proof study. (Revisão sistemática de 41 estudos; associação possível, RR médio 1,29, IU 0,98–1,71.)

